Quando assumi para o meu pai que eu gostava de homens, pensei que resolveria ali nossos problemas. Ele nunca mais falaria comigo, nós nos ignoraríamos mutuamente e eu pagaria sessões de análise. Talvez virasse um desses artistas que ficam célebres por não ter uma boa relação com os pais, o que explodiria em criatividade absurda. E, um dia, alguém teria uma camiseta com a minha cara. Como essas do Andy Warhol, da Frida Kahlo. Mas era óbvio - óbvio! - que meu pai me decepcionaria.
Uma das coisas que sempre me irritou nele foi a mania perfeccionista-protetora. "Meu filho tem que ser o melhor". E eu tinha que ser e ai dos outros que tentassem me superar. Assim, contrariando meu instinto, que desde cedo se apresentava a olhos vistos, ele me inscrevia em aulinha de futebol - coitado, eu era um fiasco! Depois, me inscreveu em aula de judô, capoeira... Até em oficina de pescaria. Pescaria, meu Deus!
Ele queria que eu fosse homem e o melhor homem do mundo. Atacante pegador, peso-pesado valentão, pescador faca na bota. No fundo, ele me queria talvez um borracheiro clássico, com foto de rachas nas paredes. Desde que eu fosse o melhor. Essa cobrança me afastava cada vez mais dele. Até que, um dia, ele me pegou beijando o colega de academia - onde, lógico, eu tinha a obrigação de ser o mais forte.
Pensei: Bom, acabou. Vai me colocar pra fora. Pelo menos, não vou mais ter que fazer coisas que eu não gosto, ser o melhor no que não tenho vocação ou talento. Nesse momento, o Diogo já tinha feito a egípcia e saído de lado. Eu tava sozinho com meu pai, na calçada da academia, e me preparei para uma surra em público, mais um mico paterno anunciado. Ele fez pior. Colocou as mãos nos meus ombros, olhou nos meus olhos, respirou fundo, contrariado, e disse:
- Você é gay. E vai ser o melhor gay do mundo. É sua obrigação. Questão de honra.
Em uma semana, ele pesquisou tudo sobre homossexualidade e virou PhD na porra toda. Lembro de um café da manhã terrível, num domingo, quando ele largou a G Magazine para me dizer muito sério:
- Você precisa ser uma bicha babado.
- Pai...
- Você gosta de se montar, às vezes, não? Tem que ter umas roupas mais...
- Pai, por favor!
- Já vi teus amigos, viado! Tu vai deixar aquelas bichas lacrarem mais que tu?
Desde então, ele vem trabalhando na minha apoteose viádica. E está cada vez mais difícil. Meus próprios amigos já estão entrando em conflito. E a Charlotte, que é a bicha mais minha amiga, confessou alguns dos comentários quando eu chego na festa:
- Hummm... Lá vem a "Meu pai me ama"...
- Olhaaa... Viado aceito é outra coisa, né? Esse aí não tem problema com família...
- Vidinha fácil enquanto a gente apanha da polícia...
- Só porque papai comprou a peruca mais cara, essa aí se acha...
Ser aceito pelo pai me deixa em posição constrangedora. Sou privilegiado, não tenho mais nem o direito de argumentar. Não me deixam mais participar das marchas contra homofobia. "Sai daqui, teu pai te ama!". "Isso aqui não te representa".
Ontem, chamei meu pai para conversar. Fomos a um café, porque eu queria um lugar neutro. Disse que estava insuportável. Que eu já não tinha vida social, que eu preisava que ele mudasse, que eu jamais o aceitaria dessa forma, que ele me envergonhava.
- Mas o que você quer que eu faça? - ele perguntou nervoso.
- Por exemplo... Quando a gente está em público. Eu sei que tu me aceita. Tu sabe que me aceita. Mas nós não precisamos ficar demonstrando, sabe? Porque essa demonstração pública provoca as pessoas. O que elas vão pensar, pai?
- Que a gente se ama. Isso é lindo!
- Mas as pessoas não estão prontas! Tu precisa ser mais agressivo comigo, sabe? Quando eu dou pinta, preciso que tu me chame atenção, me mande parar com aquilo, grita comigo!
- Filho, isso é uma coisa que tu não controla.
- Eu sei, mas eu preciso que tu seja mais... - eu procurava as palavras - homofóbico. Mais homofóbico, pai...
- Isso é um absurdo, meu filho!
- Absurdo é o que eu tô passando, pai! Você me decepciona! Você faz eu passar vergonha! As pessoas olham e comentam! Pai, eu preciso que tu faça o que eu tô pedindo!
- Filho, eu não escolhi... É mais forte do que eu... Eu não posso lutar contra mim mesmo a vida toda só pra satisfazer um ideal de pai que a sociedade fez você acreditar que era o correto.
- Pai, para de frescura. Eu preciso que tu aja como homem!